Pseudotraduções: dinamite pura

O blog do Gaveta reproduz abaixo uma carta denúncia recebida, intensificando as denúncias de pseudotraduções da Editora Martin Claret. A carta nos chegou na forma de comentário ao post “Editora Martin Claret plagiou traduções de clássicos“, e é assinada pelo leitor Saulo Krieger, que afirma ter testemunhado as ilegalidades observadas no processo de tradução da editora. A carta denúncia é contundente, e de caráter pessoal.

O blog do Gaveta do Autor não se responsabiliza pela opinião expressada pelo leitor. 0_carimbo.gif

“Fui vizinho da Martin Claret, no bairro de Perdizes, São Paulo, e tradutor antes durante e depois do episódio que narro em seguida:

Nos idos de 2000 ou 2001, ao oferecer meus serviços como profissional da tradução na referida editora, fui tomado de uma desconfiança ante seus procedimentos — livros sem autores (os tais “livros-clipping”) traduções sem tradutores ou um mesmo nome para uma gama inabarcável de títulos e gêneros.Aos poucos, foi-me revelado como todo o processo de falsificações funcionava: para meu espanto, veio a se confirmar que quase nenhuma tradução da Martin Claret era efetivamente realizada, nem mesmo seus direitos autorais adquiridos. Eventualmente se aproveitava alguma tradução que já estava em domínio público, ou, ao que me parece, foram comprados os direitos autorais da tradução de Torrieri Guimarães de uma obra de Kafka. Mas isso era exceção. Outra exceção: a tradução da obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, foi feita pelo Sr. Pietro Nasseti, mas as inúmeras notas de rodapé nela constantes foram surrupiadas de outra edição havia muito existente no mercado — o nome da editora eu não me recordo —, tanto que até erros constantes na referida tradução, e reconhecidos por estudiosos da obra, foram reproduzidos na edição da Martin Claret.

O que se fazia, como próprio Sr. Claret paulatinamente veio a me pôr a par, era um “mix” ou “enjambramento”, ou seja lá o nome que tal ato de pirataria leve, de algumas edições já existentes, em geral duas ou três. Ou do que viesse na cabeça do profissional que faria o que ele chamava de “copidesque” — qualquer pessoa com trânsito na área editorial sabe que “copidesque” não era aquilo a que ele se referia, termo que servia, pois, como um eufemismo para um procedimento desonesto que teria o nobilíssimo intuito de divulgar a produção cultural, mais precisamente obras clássicas, a preços populares. Uma vez que o Sr. Claret achava ou acha que uma tradução é algo muito difícil e custoso de fazer — e efetivamente o é —, que só pode traduzir do idioma X um nativo do idioma X —, o que absolutamente não é verdade, até pelo contrário, em alguns casos —, e em nome do seu propósito de lançar o maior número de títulos no mercado em tempo recorde — os originais estavam em domínio público (70 anos a contar da data da morte do autor), mas as traduções quase sempre não — e fazer coleções com 100, 300 títulos ou mais, sem nenhum critério que eu reconheça como propriamente editorial, era o caso de o “revisor-copidesque” se munir de uma tradução lançada, por exemplo, por uma editora como a Martins Fontes — apenas um exemplo —, por outra de uma editora que já fechara as portas — “já faliu há muito, muito tempo”, como o Sr. Claret, um verdadeiro “rato de sebos”, tinha especial prazer em dizer — ou por uma terceira tradução, de editora portuguesa, como as Edições Setenta — o Sr. Claret gostava muito das portuguesas, porque estavam do outro lado do oceano e porque em todo o caso se teria de adaptar o português de Portugal aqui e ali — para se ter o que seria a “tradução” da Martin Claret. Essas edições eram fornecidas pela própria Martin Claret, que tinha todo um acervo delas — uma extensa biblioteca, que só não contava com livros em seus idiomas de origem, se este não fosse o português. Traduções, as verdadeiras, de outros, eram escaneadas — havia um “departamento” que o fazia, como em linha de produção — para então receberem uma ligeira maquiagem.

Quem fazia o escaneamento era a neta do Sr. Claret, esta uma pessoa que nitidamente não sabia o que estava fazendo e com visível deficiência mental. Para mascarar o processo, a editora ou se mostrava muito reticente em dizer nomes de autores, optando por “equipe de tradutores da Martin Claret” — mas esta opção logo foi rejeitada pelos clientes-livreiros —, ou usava, com o consentimento deste, o nome do Sr. Pietro Nasseti, um senhor, dentista no exercício da profissão de dentista, muito amigo do Sr. Claret, ou ainda simplesmente eram inventados nomes “estrangeirados” que podiam dar a aparência de tradutores confiáveis e autorizados. Por exemplo: “Jean Melville”. “Jean” é o nome do filho do Sr. Claret; Melville, todos sabem, o sobrenome do autor de Moby Dick, esta uma obra editada pela editora, que portando estava na ordem do dia. “Popov” deve lhes ter ocorrido pelo seu desempenho nas piscinas, e daí transferi-lo para as letras foi um pequeno passo; “Alex Marins”? Outra invencionice do gênero. Certa vez o Sr. Claret chegou a me “pedir emprestado” o meu nome, “Saulo Krieger”, para usá-lo como cover de tradutor de uma obra de Nietzsche — a qual passara pelo mesmo processo — que eu não traduzira, pois, até por não me sentir capacitado a fazê-lo, mesmo sendo eu tradutor do alemão, e da qual eu não poderia nem ver o resultado — vergonhoso, diga-se — antes de ser lançada no mercado editorial. Constrangidamente eu recusei, e acho que nem é o caso de enumerar os meus tantos motivos. Mesmo assim, por desonestidade ou por desorganização da editora, acho que meu nome pode, eventualmente, constar em edições que jamais passaram pelo meu crivo, nem como revisor de textos, e muito menos como tradutor — o ofício de tradutor inexiste em se tratando de Martin Claret. O Sr. Claret não respeitava nem as traduções alheias nem o tempo de seus colaboradores-revisores, sempre solicitando, aqui e ali, um serviço gratuito, para que “se colaborasse com a editora”. Quanto aos tradutores-fantasmas, querem mais alguma prova? Quem é Jean Melville? Quem é Alex Marins? Quem é o tal “Popov”, não o narrador, mas pessoa que algum dia teve trânsito no mundo das letras? Ora, se puserem, por exemplo, o meu nome, “Saulo Krieger”, no Google, verão milhares de ocorrências, que remetem ou a meus trabalhos como tradutor, ou como escritor em certa medida difundido na net.

Saliento ainda, que, no serviço, tal como era solicitado — e chegou a ser chamado pelo Sr. Claret de “picaretagem ética” — a questão não era exatamente a de trocar termos “rebuscados” por “fáceis”, “antigos” por “atualizados” — embora isso fatalmente viesse a acontecer — mas sim por… “sinônimos” — na literatura, como na filosofia, sabemos, sinônimos não são exatamente “sinônimos”, e tudo depende do modo ou contexto como um termo ou expressão foi usada (nada disso importa para Martin Claret) — ou então, outro expediente de sua predileção, cortar parágrafos, e abri-los, sem qualquer critério não fosse o de “escamotear”, onde não existiam em outra tradução. Solicitava-se alterar sobretudo inícios e finais de parágrafos, para que “não desse na vista”. O miolo, bem, este poderia bem passar com muitas semelhanças, normalmente mais do que improváveis entre uma e outra tradução.

Em obras como as de Machado de Assis, Castro Alves, Eça de Queiroz, José de Alencar, por motivos óbvios, não se procedia a qualquer irregularidade ou desonestidade. As capas: as capas eram feitas por um indivíduo, terceirizado, ganhava apenas R$ 200 por cada uma delas, era adepto da New Age e outras maluquices que tais — daí também o mau gosto — e usava sempre o próprio rosto e o do seu filho na tentativa de “retratar”, com aquelas ambientações horrendas, o que estaria “a se passar” no conteúdo do texto, o de muitas obras altamente abstrato, como sabemos. Claro, eram e são completamente inadequadas: coluna grega em Descartes, igreja católica em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, sistema prisional em “Para além de bem em mal”, de Nietzsche” e a novelinha adocicada que sugere a capa de “Crime e castigo”.

Mas voltando, dali para diante, após algumas visitas à editora, passei a comunicar a outras pessoas do meu círculo ou mesmo do meio editorial — como fiz, contando o ocorrido à Martins Fontes — sobre como as coisas aconteciam naquela casa editorial. Editores me agradeceram, dizendo, porém, que não havia nada que se pudesse fazer a respeito.

Tudo isso revelo agora porque, de lá para cá, minha indignação só fez crescer ante tais procedimentos — e à indiferença do mercado editorial à revelação dos “estratagemas” — e porque, afinal, lá estive oferecendo meu trabalho como tradutor — do inglês, do francês e do alemão — e não como profissional adepto de “picaretagem ética” em nome de uma democratização da produção cultural que se fazia e se faz por vias torpes e tortas.

O Sr. Claret nunca esteve interessado em divulgar a cultura, e, sim, em ganhar dinheiro e se promover como “editor”. Autorizo plenamente a publicação desta denúncia, que não é anônima, fico satisfeito em poder desvelar a farsa, revelar minha experiência e externar minha indignação.”

8 Responses to “Pseudotraduções: dinamite pura”

  1. [...] Postado no 28/ 02/ 2008 por rogério christofoletti O blog do Gaveta do Autor traz uma carta-denúncia de um ex-tradutor da Editora Martin Claret que coloca mais gasolina na fogueira. Para quem não se lembra, a editora [...]

  2. Retificação: nunca fui tradutor da Martin Claret, porque a editora quase nunca recorre a serviços de tradução. Pode, eventualmente, comprar direitos autorais deste ou daquele tradutor ou de algum herdeiro, mas isso é raro. Como já disse, o meu nome chegou a ser pedido “de empréstimo” para ser um “cover” de tradutor, o que eu constrangidamente recusei.

  3. Me espanta saber isto de uma editora que eu compro quase 90% dos meus livros, vou pensar bem antes de adquirir outro Martin Claret de novo.

    O único problema é que eles são os livros mais acessíveis do mercado, concorrendo com L&pm books.

  4. Adriano,

    eu fiz várias ressalvas, como a Eça de Queirós, José de Alencar, por exemplo. Vc estará de posse de uma edição barata, mas em domínio público. De resto, sinto muito dizer, mas saiba que se vc tiver Júlio Verne pela Claret, vc não estará lendo Júlio Verne — não exatamente. Balzac, bem, um bem falso arremedo de Balzac. Se tiver Kant ou Nietzsche, idem, ou nem se fala. Hume? Viremos essa página. Razão e entendimento não são o mesmo em Kant. Hábito e costume não são o mesmo em Hume. Isso só para ficar em dois casos muitíssimo pontuais que me são familiares, dada a minha formação, e de que me lembro agora. Sinto muito — tentei ir contra, mudar e denunciar tudo isso, desde quando soube. Agora eu só posso dizer que sinto muito.

    Saulo Krieger

  5. ops, o texto está em domínio público em alguns casos, a própria tradução. Mas esses casos são minoria.

  6. sempre soube que essa editora era uma farça pois o principal objetivo deles é ganhar dinheiro em cima do leitor desinformado e sem um minimo de dicernimento cultural.

  7. Pelas capas esotéricas, é difícil dar alguma credibilidade…

    Bom saber. Tenho dois livros da editora, mas felizmente de domínio público.

  8. Quando as capas não são esotérias, o negócio pode feder ainda mais, como no caso de Fernando Pessoa, que é o número 3, de A obra prima de cada autor, se não estou enganado…

    Esto com medo do que farão com Freud, a partir do ano que vem… Ano que vem Freud entra em domínio público. Estudei psicanálise, na época quis até traduzir Freud, mas estava longe disso. Eu tenho medo do que MC possa fazer com Freud e seus conceitos, além daquele “Pensamento Vivo”, colagem sem autor, sem crédito a ninguém, que já fez.

    Ah, aquele texto que fazia as vezes de prefácio ou coisa que o valha em todos os títulos de A obra prima de cada autor, o Sr. Claret assinava como sendo dele próprio, mas era de alguma Barsa da vida. Compilado. Os nomes da coleções são copiados de coleções que já existiram, de editoras que já fecheram (não cheguei a conhecê-las… Sou velho, mas não tanto). Detalhe: nada disso está em domínio público.

    Em sua longa trajetória de plágios, a MC conta com o beneplácito de outras editoras. Exemplo: se vc for ver, o terceiro livro de A obra prima, que é de Fernando Pessoa, tem ou tinha uma capa à antiga, diferente dos demais da série. Motivo: a MC havia sido pressionada ou advertida por outra editora, não lembro qual, que detinha os direitos autorais de Pessoa. A outra editora deixou que a MC comercializasse toda aquela edição, comprometida em não tornar a rodá-la. O que a MC fez? Continuou a rodar na gráfica a mesma intérmina edição, razão pela qual esta continuou sempre com a capa antiga, destoando do restante da coleção. É como digo: é muita, muita picaretagem. Fiquei sabendo e constatando, também, pela net, que a própria capa de Crime e castigo — sempre a achei tão horrenda quanto inadequada — é copiada de um filme-novelão.

    Há alguns meses um profissional da Folha entrou em contato comigo, queria ver se eu sabia, se eu lembrava, de que originais eram feitas as maquiagens. Isso eu não sei ou não lembro — mas a MC tem um departamento familiar para fazê-lo e conta com uma biblioteca de edições que foram ou serão copiadas ou maquiadas — para dizer, “vai lá na edição da extinta editora tal e na da MC”, mas muitos já fizeram o cotejo e viram que a semelhança não poderia ser casual ou coincidente. Sei de algumas editoras que já não existem mais, com base em cujas edições a coisa era surrupiada, tipo Vecchi, Círculo do Livro ou Clube do Livro, nunca sei a diferença. Sobre A ética protestante e o espírito do capitalismo, a vítima foi a Editora Pioneira, mas “só” no que diz respeito às notas de rodapé.

    Eu só sei que nas humanas da USP, Martin Claret não entra. Ouve-se pelos corredores sobre a picaretagem, houve quem já fez cotejo e constatou. Se alguém compra, pelo preço, acho que lê em casa, escondido, e se fosse possível leria de luz apagada.

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